Genocídio anunciado

Boa noite!

Vamos à algumas definições:

Genocídio: “um plano coordenado, com ações de vários tipos, que objetiva à destruição dos alicerces fundamentais da vida de grupos nacionais com o objetivo de aniquilá-los”. Raphael Lemkin, advogado, judeu polonês, e primeiro a usar a palavra (geno: raça, tribo; e cídio: matar). Anos depois, na “Convenção para a Prevenção e Punição de Crimes de Genocídio” da Organização das Nações Unidas (ONU), definiu-se genocídio como segue abaixo:

“Por genocídio entende-se quaisquer dos atos abaixo relacionados, cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso, tais como:

(a) Assassinato de membros do grupo;

(b) Causar danos à integridade física ou mental de membros do grupo;
(c) Impor deliberadamente ao grupo condições de vida que possam causar sua destruição física total ou parcial;

(d) Impor medidas que impeçam a reprodução física dos membros do grupo;

(e) Transferir à força crianças de um grupo para outro.”

(Fonte: USHMM)

Desta forma não é um exagero dizer que o que vem acontecendo com os índios no Brasil, principalmente no chamado “cone sul” do estado do Mato Grosso do Sul, é um genocídio. No vídeo intitulado “Salve Dilma, aqueles que vão morrer te saúdam” exibido na abertura do Fórum Social Mundial de 2012 e disponível no You Tube, é possível ver que pelo menos os itens a, b e c mencionados acima se verificam. E com frequência: ao menos 503 índios foram assassinados entre 2003 e 2011 no Brasil (Fonte: Sócioambiental.org).

Alguns talvez já tenham visto em algum noticiário sobre a manifestação no dia 19 realizada na esplanda dos Ministérios, em Brasília, onde foram fincadas cinco mil cruzes como forma de chamar a atenção dos brasileiros para a situação crítica em que se encontram os índios no Brasil, principalmente os Guarani-Kaiowás que vivem na região do Mato Grosso do Sul. Mas o que eu não sabia e que não poderia de deixar de compartilhar com vocês é a carta enviada pelos Guarani-Kaiowás de Pyelito Kue/Mbarakay, território no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul, e endereçada à Justiça Federal depois da decisão da Justiça de Naviraí determinando que os índios deixassem a área. Na carta, que não é assinada por uma pessoa, mas por uma comunidade, é anunciado o suicídio coletivo  de 170 seres humanos que perderam as esperanças de ver seus direitos garantidos por aqueles que teriam a obrigação de fazê-lo.

Carta dos Guarani-Kaiowá anunciando o suicídio coletivo. (Fonte: APIB)

Talvez alguém lendo esse artigo ou alguma outra notícia a respeito não entenda qual o problema em os índios saírem daquele lugar para morar em outro, ainda que na cidade onde poderiam trabalhar, estudar e ter acessos a todas as facilidades a que nós, civilizados, estamos acostumados, ou nas reservas definidas pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) que, mais tarde, se tornaria a Funai (Fundação Nacional do Índio). Certamente nós, que estamos acostumados às nossas vidas independentes, onde tudo se compra e se vende, não conseguimos captar o sentido que a “comunidade” ou a “terra” tem para essas pessoas e, assim, possa parecer apenas loucura que uma tribo inteira se mate por causa de um pedaço de terra.

O problema é que não podemos avaliar essa situação partindo de nosso ponto de vista. Precisamos compreender que para a maioria das tribos indígenas a sua própria identidade está intrinsecamente relacionada ao seu território e à sua tribo. Precisamos entender ainda que a definição de fronteiras é algo relativamente novo na cultura indígena e “…interrompem a continuidade territorial com a qual os índios estavam acostumados a lidar.” (Fonte: sócioambiental.org). Tanto que, a palavra guarani “tekoha” (teko= modo de viver), atualmente utilizada para definir seu território, tem registro relativamente recente, principalmente a partir da década de 70. (Fonte: sócioambiental.org).

Outro problema está relacionado à demarcação de terras pelo SPI ou pela Funai. Mesmo nas áreas já demarcadas, que não são suficientes para abrigar toda a população indígena da região, ainda existem posseiros e proprietários de terra que ainda não foram retirados pelo poder público ou que simplesmente não respeitam essas demarcações. Segundo o antropólogo e professor da UFRJ, Tonico Benites, um guarani-kaiowá, os índios acabavam invadindo essa terras já identificadas mas ainda ocupadas pelos fazendeiros, passando a ocupá-las definitivamente. (Fonte: Pontao de Cultura Guaicuru) Ou pelo menos até que fossem expulsos novamente pelos “seguranças armados” destes ou pela própria Justiça Federal que várias vezes decidiu a favor dos posseiros (e viva o direito à propriedade!).

Outra questão também apontada por Benites no texto “O povo Guarani e Kaiowá na mídia local do Mato Grosso do Sul“, é a forma como muitas vezes essas ocupações indígenas são tratadas pela mídia, como vandalismo e invasão (como se aquelas terras nunca tivessem lhes pertencido). Há ainda a questão do ataque à cultura desses povos uma vez que outras religiões tem se instalado nas reservas colocando sob ameaça a manutenção da tradição religiosa indígena como foi denunciado na matéria veiculada pela rede de televisão Bandeirantes em agosto de 2012 (veja). Soma-se a isso o fato de o alcoolismo e a violências nas reservas serem sempre tratados como problemas internos, como se não fossem frutos também da agressão psicológica e privações físicas à que são submetidos.

Totalmente imersos em nosso mundo “civilizado”, “desenvolvido” e “organizado” não conseguimos compreender a razão de ainda existirem pessoas que queiram viver no meio do mato, trabalhando não o dia todo, todos os dias, mas apenas o suficiente para o sustento de sua tribo sem necessidade de lucrar com isso e que valorizem acima de tudo a comunidade e o sentimento de pertencimento à terra de seus antepassados. Preferimos chamá-los de preguiçosos ao invés de admitir que somos apenas diferentes. Somos?

“Nossa pele tem a cor da terra, que a terra é nossa e nós somos da terra.” Cacique Ambrósio, aldeia Guyraroka. (Fonte: TV Carta Maior)

Abraços!